Como no livro “Depois daquela viagem” (POLIZZI, Valéria), a minha vagem também foi desastrosa. Depois de uma temporada fora da minha casa, eu retorno já doente, com 5kg abaixo do meu peso ideal. As únicas coisas que passavam pela minha inflamada garganta eram água e banana amassada.
Desembarquei na minha cidade e fui direto para o hospital, onde recebi diversos pedidos de exames, menos o que constataria o HIV. Mas daí tudo bem, não fiz nenhum deles. Em casa eu tomei remédios, fui melhorando, melhorando...fiquei ótimo!
Sempre tive medo de adquirir essa doença. Sempre tentei me cuidar ao máximo, apesar de não parecer, mas sempre confiei muito fácil em qualquer pessoa que estaria ao meu lado – uma contradição, não é mesmo? A ingenuidade me atrapalhou.
Desde quando peguei o vírus, sentia que o meu corpo falava comigo, não sei explicar como. Esse pensamento não saia da minha cabeça. Eu sentia calafrio alternando com calor. Eu sonhei pelo menos 2 vezes que tinha feito o exame – uma delas, inclusive, deu negativo.
Cerca de 7 meses após o vírus fazer parte da minha vida sem eu saber, eu descobri, finalmente, que o meu nome passou a fazer parte das estatísticas dos portadores do HIV. Foi um choque, uma dor que remédio algum poderia aliviar. Cheguei a pensar que Deus não existia mais para mim, mas nunca deixei de lembrar que eu fui o culpado por tudo isso. Cazuza nunca esteve tão próximo de mim. Meus sonhos foram implodidos mas sem deixar nem os cacos. Carros, empregos, bom salário, reconhecimento do trabalho... Como num filme, ví tudo isso passando pela minha frente e as minhas mãos, estendidas, já não conseguiam alcançar mais. Tudo ficou distante da minha nova realidade. Foram dias após dias de muito choro, de desespero, de medo...me lembro quando tive medo de fechar meus olhos para dormir e não acordar mais.
Enfim, me deparei um mundo novo onde, com um vocabulário formado de novas palavras que passariam a ser, em pouco tempo, normais (infectologista, CD4, carga viral, etc etc)...
E por aí vai, e por aí foi. Hoje, após 3 anos da descoberta do vírus por todo o meu corpo, vivo bem, vivo feliz, com Deus no coração. O resto, é lucro.
Saúde e paz